quinta-feira, 28 de abril de 2011

O Homem Transparente - A Viagem - Episódio IV

    A mesa está completa e foi servida muita comida, daria para servir com satisfação mais uns oito participantes, tudo planejado para sobrar. João, embaixo da mesa, parece feliz.
    O Homem Alambique e Frieza se olham como se a competição já estivesse ganha, por um deles é claro.
    Depois de conseguir comer um cachorro quente "completo", acompanhado por um tubo de ketchup e um refrigerante de cola, de dois litros, bem gelado, satisfeitíssimo, o Homem Transparente, junto com os irmãos Gê e P. S. assistem o desafio beliscando um pratinho com um famoso salgadinho de sabor bacon com maionese. A receita desta iguaria é o resultado de algumas pesquisas inúteis e de uma tremenda ociosidade mental do Homem Sem Graça, que é pai do Homem Transparente.
    O Homem Sem Graça é um humorista complexado por não conseguir emplacar nenhuma de suas piadas por serem horríveis e sem nenhuma graça.  Por necessidade teve de trocar de profissão e hoje ele trabalha em um famoso circo, mas não como humorista, e sim, como malabarista.
     Depois de fazer um curso de "Sete Anos na China", aprendeu a fazer malabares com os dedos utilizando cartas. Faz de tudo com as cartas, chegando a ser convidado por um parente, "caso não caracterizado como nepotismo", para ministrar um curso permanente de defesa pessoal para o BOPE com a utilização das cartas de um baralho especialmente desenvolvidas por ele e para ele, feitas de aço, levíssimas e letais. Tentou patentear a criação, mas também não obteve sucesso por não ter dinheiro para o registro e por não encontrar nenhum patrocinador maluco a ponto de rasgar dinheiro com a sua invenção.
    Recusou o trabalho estável no BOPE na intenção de ter mais tempo ocioso e poder dar continuidade ao seu maior sonho, que é criar uma piada que alguém consiga rir sem precisar fingir para não perder o amigo.
    Eles estavam certos. Depois de uma hora e vinte e cinco minutos de competição, restaram somente, naquela imensa mesa, antes farta de comida, o Homem Alambique e seu grande amigo Frieza, não esquecendo o João, que agora têm um olhar perdido de tão satisfeito embaixo da mesa.
    Frieza resolve parar, já que observa o prato do Homem Alambique praticamente vazio. Levanta-se com um olhar de campeão, empatado, mas campeão, e escuta aquela voz de trovão do Homem Alambique perguntando para a equipe organizadora: "Vocês podem me conseguir um pratinho de feijão pra acompanhar os cinco pãezinhos que restaram aqui?".
    Frieza sacode a cabeça dizendo bem baixinho "de novo" e sai da mesa indo em direção ao banheiro.
    Viva o Homem Alambique.
   


   

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O Homem Transparente - A Viagem - Episódio III

    Quando o atendente salta o balcão, é instantaneamente arremessado para o fundo do salão do restaurante por uma única mão de um cidadão que surgiu do nada, causando uma quebradeira geral em umas prateleiras onde se localizava as bebidas mais "finas" do estabelecimento.
    Ao perceber que o atendente "apagou" com uma simples "mãozinha" que o atacou, o Homem Transparente olha para os lados à procura de quem o havia ajudado sem que ele tivesse pedido, fica pensando em quem teria interferido nos seus problemas e então ouve uma voz que mais parece um trovão perguntando: Queres jantar com a gente Transparente?
    O Homem Transparente dá um largo sorriso ao reconhecer o seu tio caminhoneiro, o Homem Alambique e o seu amigo de estrada denominado Frieza.
    O Homem Alambique tem aproximadamente dois metros de altura e uma barriga de competir com qualquer mulher grávida de trigêmeos com nove meses de gestação, uma mão que mais parece uma raquete de tênis, tem a fama de beber muito, mas somente quando não está trabalhando. Conhece todo mundo, facilmente se elegeria como candidato a qualquer coisa que quisesse. Sempre alegre, brincalhão, extremamente bem humorado, debochado e dono de um coração de dar exemplo e causar inveja, uma mistura de Madre Tereza com São Francisco, já que não suporta que maltratem nem um mosquito, principalmente o seu companheiro de boleia, o cão João.
    Além de ser bom de copo, o Homem Alambique também é bom de garfo e havia parado no restaurante para participar de uma competição de "quem come mais" que, segundo ele, se realiza com frequência nestes estabelecimentos comercias de beira de estrada.
    No momento que está entrando no restaurante, presencia a confusão com o Homem Transparente, resolvendo com facilidade a questão.
    Frieza, o amigo do Homem Alambique, que também é caminhoneiro e também é grandão, mas sem barriga, é um cara de pouca conversa, e quando alguém se aproxima de forma calorosa para cumprimentá-lo, simplesmente diz "oi", o que é suficiente para fazer jus ao seu nome. Uma frieza só.
    Apesar de todo esse "gelo" é um amigão. Odeia cigarros e tem um gosto refinadíssimo para música.
    O seu caminhão é aromatizado regularmente e ele só escuta as melhores composições, daquelas que, segundo ele, tem uma boa letra, com mensagem, algo a dizer embaladas por melodias agradáveis.
    Desprezando as músicas vulgares e apelativas, nesta noite, Frieza escutava repetidamente um CD cantado em italiano por um jovem brasileiro e fazendo comentários, lamentava a situação o estado de saúde do excelente interprete.
    Em alguns minutos chega uma ambulância para levar o atendente do restaurante, que continuava desmaiado, para o hospital.
    Sentados esperando a famosa competição alimentar estavam o Homem Transparente, o Homem Alambique e Frieza, mas embaixo da mesa ficava João, cachorro do Homem Alambique, quieto e observador, até que começa a rosnar e todos percebem que se aproxima duas figuras discutindo, sem muita convicção de quem estava certo ou errado, mas, discutiam muito.
    Aproximaram-se da mesa de forma calorosa para cumprimentar Frieza que deu aquele gelo básico logo na recepção, somente emitiu um "oi".
    Eram Gê e P.S, dois conhecidos de Frieza. Os irmãos  estavam discutindo na tentativa de chegar a um consenso de como e porquê erraram o caminho. Completamente perdidos, pararam no posto de combustível para conseguir informações quando avistaram no estacionamento o caminhão de Frieza.
    Os irmãos Gê e P.S. trabalham com um furgão de manutenção em equipamentos eletrônicos, mas são os típicos caras que se perdem no caminho da própria casa, como se sempre precisassem de um navegador em tempo integral.
    Estão sempre calmos, como se nada os atingissem, mas sempre aéreos. Conseguiram as informações de Frieza, mas como estavam perto da cidade onde fariam as manutenções resolveram jantar e acompanhar de perto a competição.
    Os organizadores da peripécia gastronômica enfileiram várias mesas, cobriram todas com toalhas e começaram a trazer as travessas com uma quantidade enorme de comida.
    Uns trinta competidores sentam-se à mesa, incluindo o Homem Alambique e Frieza. Duque está estrategicamente posicionado embaixo da mesma, pois sempre sobra alguma coisa.
    O Homem Transparente e os irmãos Gê e P. S. estão confortavelmente acomodados para assistir a competição.
    Vai começar o desafio.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O Homem Transparente - A Viagem - Episódio II

    Somente uma mochila. Esse é todo o mundo que o Homem Transparente agora carrega consigo. Todo o resto foi deixando para trás.
    Provando para si mesmo que não precisa de quase nada do que o acompanhava no passado e dando a verdadeira importância para o seu presente, principalmente tentando ver uma possibilidade de um futuro melhor, de realizações, de reconstruções, ele segue a sua viagem.
    Montado em sua potente motocicleta de 125 cilindradas, que atinge a fantástica e máxima velocidade de 85 quilômetros por hora, com o punho trancado no fundo, acelerador no máximo, ele deita sobre o seu veículo para não ser arremessado pelo vento nas incríveis curvas da serra paulista onde segue para o sul do sul do sul.
    Com fome, o Homem Transparente decide parar no próximo estabelecimento comercial que encontrar para se alimentar, esticar as longas pernas, tentar colocar a finíssima coluna no lugar e descansar um pouco.
    Ainda na estrada, observa um grande número de caminhões estacionados em um posto de combustível e sabendo que a melhor comida servida em beira de estrada é identificada com facilidade pelo simples fato de ter muitos caminhões parados, resolve dar um descanso a sua potente motocicleta.
    Estaciona numa vaga destinada a automóveis e observa que além de combustível, o local ainda conta com restaurante, motel e uma boate, daquelas clássicas de beira de estrada, com uma luzinha vermelha na porta.
    Entra no restaurante, pede um cachorro-quente com muito Ketchup, um refrigerante de cola em um copo de vidro alto com limão e muito gelo e fica observando o ambiente que está razoavelmente cheio.
    Depois de esperar 1 hora e 10 minutos, começando a ficar irritado, já quase desistindo do pedido, um atendente chega com o lanche.
    Voltando a ficar calmo, o Homem Transparente começa a morder o cachorro quente, mas percebe, na primeira mordida, que o cachorro-quente, não está tão quente.
    Observando que o atendente não trouxe a quantidade pedida de ketchup, ergue o dedo para chamar a atenção do rapaz que com visível má vontade, ergue a mão como que dizendo "já vou", com desdém, e demorando alguns minutos, se aproxima.
    Pedindo a porção que gostaria de ketchup, o atendente diz, de forma rude, que será cobrado por porções extras do produto, o Homem Transparente não gosta da atitude do estabelecimento representado neste momento pelo atendente, mas diz que não há problema, pode trazer e pode cobrar.
    Depois de receber a quantidade extra de ketchup, o Homem Transparente pergunta pelo refrigerante e o atendente, com um ar de poucos amigos, irritado, pergunta se o Homem Transparente pode esperar.
    Com todos esses tropeços do atendente, somado a fome, que já o consumia, o Homem Transparente não havia percebido, mas o cachorro-quente que lhe foi servido está sem nenhuma salsicha, um verdadeiro pão com molho, então, imediatamente chama o atendente para reclamar, mas este, já sem paciência e carrancudo, se aproxima sapateando, de forma grosseira, como se marchasse para a guerra, foi ouvir a reclamação trazendo em uma badeja um copo plástico sem gelo e sem nenhum limão, com uma garrafa de refrigerante já aberta e seu liquido, morno.
    O Homem Transparente perde a paciência e se levanta, mas o atendente que mais parece um armário de portas abertas também perde a paciência e pulando o balcão que os separava, parte para cima do Homem Transparente.
    A confusão está formada.
   

sábado, 2 de abril de 2011

O Homem Transparente - A Viagem - Episódio I

    Não suportando mais o seu atual emprego, a sua atual situação sentimental, emocional, existencial e financeira o Homem Transparente vira a chave de sua potente motocicleta e decide viajar para uma longínqua localidade ao sul, do sul, do sul a procura de "Gurumim", uma mescla de guru, feiticeiro, vidente e bruxo para encontrar respostas, alternativas e quem sabe, a cura.
    O Homem Transparente nasceu com incríveis habilidades para trabalhos manuais, como a manipulação de materiais dos mais diversos tipos, um artesão nato.
    Seu principal poder é ser extremamente magro, transparente, podendo passar por frestas, grades, janelas, por de baixo de portas e até flutuar. Sim, ele voa.
    Por ser extremamente leve, a sua potente motocicleta possui cinto de segurança e um complexo sistema inteligente de monitoramento que identifica quando ele se afasta, sendo assim, o motor desacelera, a caixa desengata as marchas e a motocicleta é estacionada automaticamente, sem causar danos ou acidentes.
    O principal motivo desta verdadeira odisseia  é que O Homem Transparente estava insatisfeito com o seu atual emprego. Foi a gota d'água.
    Depois de ter trabalhado para diversas organizações políticas, militares, governamentais e não governamentais, NASA e participar de experiências científicas em diversos países, o Homem Transparente estava prestando seus dotes para a Universidade Federal do Rio de Janeiro, no Brasil.
    Seu trabalho, apesar de ser muito bem remunerado, foi conseguido através de uma "indicação", esta não caracterizada como um caso de favorecimento ilícito ou nepotismo, já que a atividade era de extrema importância não somente para toda a comunidade científica, mas para toda a humanidade.
    O Homem Transparente servia de modelo vivo para os estudantes vindos de todas as partes do mundo, com a finalidade de observar o funcionamento do corpo humano, já que através dele, os estudantes poderiam ver todos os órgãos em plena atividade, podendo assim trazer grandes avanços para a medicina, biologia, farmacologia, mas principalmente alavancando o estudo da robótica especializada em construção de órgãos artificiais para transplante.
    Os laboratórios viviam lotados, principalmente de japoneses, estes sendo os principais patrocinadores do projeto.
    Cansado de tudo isso,  e de ser um homem objeto, é que ele decide viajar à procura de "Gurumim".